Um beijo suspirado

Um sorriso, um olhar, um abraço e conversas intermináveis.
Uma palavra, um toque suave de mãos, uma provocação mútua infindável que termina numa pergunta.
Um coração partido e lágrimas perdidas num oceano de dor vindo de uma realidade que não passou de um sonho.
Uma cama vazia e fria como se a noite de inverno ali estivesse deitada envolve o corpo frágil da alma estilhaçada cujo coração se atreveu a sonhar. Gotas de sangue surgem sobre o vestido branco, agora rasgado como simples folha de papel.
Um sorriso que disfarça a dor de um adeus iminente, uma mensagem que termina as palavras e deixa um simples beijo suspirado.

Lisboa Secreta #8 – Luzes

O bar estava tão silencioso o que fazia com que cada passo fizesse mais barulho do que era suposto. Ao olhar em redor só conseguia ver corpos por todo o lado. Respiravam, mas fora isso não havia qualquer outro sinal de vida.
Conseguiu chegar à porta e abriu-a fazendo com que a luz do dia não a deixasse ver nada. Quando finalmente os seus olhos se habituaram à luz viu um cenário semelhante ao que tinha dentro do bar. Silêncio.
Não havia ninguém nas ruas pelo que o quer que tivesse acontecido devia ter sido ao bater da meia-noite, ou assim pensava.
Nos vidros de um carro uma luz parecia saltitar.
Nah… ainda devo estar com os efeitos da noite passada. Pensou ela, mas depois à sua frente outra luz parecia pairar em frente aos seus olhos.
Deu um passo atrás mas a luz parecia segui-la. Apareceu outra. E depois outra.  Sentiu algo quente na mão esquerda e viu que uma luzinha   estava lá pousada. Quando abanou o braço sentiu-o a aquecer e foi consumida por um flash.

Opinião do “Diário de uma Pagã”

A Sofia Teixeira do blog Bran Morrighan já leu o livro e já podem ler a opinião dela aqui.

Diário de uma Pagã é um pequeno livro de poesia, o primeiro que leio de Alexandra Rolo. Os primeiros poemas desde logo me surpreenderam e agradaram, acho que a autora teve bastante sensibilidade ao escrevê-los e são bem patentes e expressivos os sentimentos que a sua personagem principal pretende transmitir.
Ao longo do livro, vamos percorrendo as dúvidas, a angústia, o amor e a dúvida da personagem. Poema após poema, vamos oscilando entre momentos de gratidão e momentos de desespero. Houve alturas em que senti que a personagem se repetia, não trazendo muito de novo. E sendo o livro o diário de uma rapariga pagã, esperava que houvesse mais elementos da natureza ou dos deuses nos seus poemas. Não obstante, acho que a autora tem imenso jeito para a poesia e em breve conto ler o seu outro livro ‘Passagens’.

Lisboa Secreta #7 – a sombra

Quando Adriana abriu os olhos viu que estava deitada no chão ao lado de uma das suas amigas.
- Mas o que raio… – olhou em redor e viu que toda a gente parecia desmaiada. Inclinou-se sobre a que estava ao seu lado para ver se estava a respirar quando viu uma madeixa de cabelo preto sobre o seu ombro. Assustada virou-se para trás mas não viu ninguém. Levou uma mão ao seu cabelo e viu que este se tornara preto. Assustada correu, por entre os corpos adormecidos, até à casa-de-banho e sufocou um grito. A sua pele tornara-se praticamente branca e os seus olhos verdes eram agora tao negros quanto o cabelo.
Um barulho chamou a sua atenção e apressou-se a procurar o telemóvel que tinha na sua malinha, presa ao pulso esquerdo.

Só chamadas de emergência


Do outro lado o telefone tocava mas ninguém atendia.
- Raios. Porque é que ninguém atende? – atirou novamente o aparelho para dentro da mala e espreitou pela porta. Ninguém se mexia, quase pareciam congelados.
- Olá Adriana. – um cheiro salgado invadiu a sala e só teve tempo de apanhar algo que fora atirado na sua direcção. Ao voltar a olhar para o local de onde tinha vindo a voz já não estava lá ninguém.
Nas suas mãos estava agora uma adaga que ao desembainhar substituiu o cheiro salgado por uma sombra, mais escura que a própria noite, que abraçou o seu corpo.

Lisboa Secreta #6 as doze badaladas

Faltavam cinco minutos para a meia-noite quando a caixa mudou, estava agora completamente seca, parecendo que nem tinha tocado em água.
DONG!
Neusa manteve os olhos na caixa que agora ganhara letras verde esmeralda.
DONG!
Não havia nenhum relógio na cidade, que ela sentia agora a mudar, que fizesse aquele barulho imenso.
DONG!
Clara estava numa festa com uns amigos num bar quando ouviu aquilo que parecia um relógio. DONG!
- Clara! O teu cabelo está tão giro. Como puseste as madeixas a brilhar dessa maneira? – gritava uma amiga ao seu lado.
DONG!
Priscila estava em casa com os seus pais e irmão a fazer a contagem decrescente para a meia-noite. DONG! Foi até à janela para tentar perceber de onde viria o barulho.
- Querida, estás bem? – perguntou a sua mãe ao ver como a filha estava a ficar pálida.
- Está a doer-me os dentes.
DONG!
- Camila, os teus olhos mudam de cor? Nunca tinha reparado.
- Huh?
- Os teus olhos estão verdes.
Abriu a mala e tirou um pequeno espelho para ver se o que a amiga dizia era verdade.
DONG!
- Que barulho é este? – perguntou Adriana?
- Que barulho?
- Este… parece um relógio… ouve…
DONG!
- Não ouviste?
- Não ouvi nada. Estás bem? Se calhar é a tinta do cabelo que te está a fazer mal…
- Uh? O quê? Estás parva?
Decidiu ir apanhar ar, ela sabia que tinha ouvido um som estranho e que não estava maluca.
DONG!
DONG!

Neusa continuava sentada no chão com a caixa no seu colo.
DONG!
A última badalada da meia-noite trouxe consigo uma brisa que abriu a tampa…

Lisboa Secreta #5 Neusa

Havia muito barulho nas ruas apesar de ninguém lá estar. Era a última noite do ano de 2011 e já pouco faltava para a meia-noite que marcava a entrada em 2012. O barulho que se ouvia vinha das casas e cafés onde grupos de amigos se juntavam para celebrar.
Por entre ruas e carros alguém se movimentava. Neusa tinha o seu cabelo preto com madeixas loiras preso no alto da cabeça. Usava uma camisola branca e uma saia de ganga com sapatilhas a condizer. Os seus olhos azuis pareciam brilhar no escuro da noite.
Olhou para o relógio, estava quase na hora e ainda tinha de se preparar. Esta passagem de ano seria inesquecível para muitos.
Correu até ao parque do Campo Grande e procurou o lugar onde o lago era mais largo. Chegando lá estendeu a mão direita sobre a água e viu-a a tornar-se límpida e cristalina. Não se preocupou em tirar as sapatilhas antes de entrar na água gelada.

A tremer com frio caminhou alguns passos antes de mergulhar e chegar ao fundo do lago onde encontrou uma caixa. Voltando à margem respirou fundo e esperou pelas doze badaladas… 2012 iria trazer muitas surpresas…

Lisboa Secreta #4 Clara

- Clara! Onde vais? – perguntou a sua mãe ao vê-la a calçar os ténis
- Vou ao cabeleireiro, amanhã está fechado.
- O que vais fazer ao cabelo desta vez?
Clara adorava desporto, sair com os amigos e o seu cabelo. Não aguentava muito tempo com o mesmo visual e da última vez que tinha feito uma makeover chegara a casa com metade do cabelo rapado.
- Vou só cortar as pontas e fazer umas madeixas.
A mãe respirou fundo, não havia muito a fazer. Desde pequena que ela era teimosa e nem com a idade tinha melhorado. Ainda assim era uma jovem responsável. Tendo estudado numa academia de dança bastante conceituada na zona do Porto, era agora professora numa escola em Lisboa. A sua mãe tinha-se mudado dois anos antes dela ter acabado o curso pois tinha recebido uma proposta de trabalho que lhe pagava mais.
Estava para descer para o metro quando mudou de ideias e decidiu ir a pé até ao cabeleireiro. Andava com uma estranha vontade de usar cor-de-rosa e escolheu um tom brilhante para fazer várias madeixas nos seus longos cabelos pretos.
- Está bem assim? – perguntou a cabeleireira
- Perfeito. – respondeu com um sorriso. Era mesmo aquilo que ela tinha em mente. – Estou pronta para a passagem de ano.

 

Lisboa Secreta #3 Priscila

Os seus cabelos castanhos esvoaçavam com o vento e estava com alguma dificuldade em manter os seus olhos abertos ainda que estivessem escondidos atrás dos óculos.
- Raio de tempo. – resmungou em voz baixa enquanto segurava no chapéu de chuva que pouco faltava para partir.
Sentia-se contente por a paragem do autocarro ficar mesmo à porta da universidade e não ter de andar muito até ao edifício da biblioteca.
- Ufa.
Estava ela a pousar os livros numa das mesas quando alguém chocou contra ela.
- Oh Deus, desculpe menina.
- Veja lá po… – ao olhar para cima perdeu a fala tendo ficado espantada com o que via. Ele era alto e moreno, um verdadeiro sonho de homem, defeito, o quadrado branco que tinha no colarinho da camisa. – Ahh não faz mal senhor padre. Não se partiu nada. – disse esboçando um sorriso.
- Ora por favor, chame-me  Emanuel. – estendeu a mão para a ajudar a levantar-se e pegou nos livros que ela tinha pousado – Por favor, pelo menos deixe-me pagar-lhe o café.
- Ahh não, não posso aceitar.
- Tem aulas é?
- Nem por isso, estamos ainda em férias de Natal sabe?
- Então não aceito um não como resposta.
Caminharam em silêncio até à cafetaria
Quando se sentaram começou a tirar o casaco e o cachecol para revelar uma larga camisola de lã branca que escondia as suas formas. Foi o jovem padre que quebrou o silêncio quando chegou à mesa com dois cafés e uma tosta mista acabada de fazer.
- Não me disse o seu nome.
- Priscila.
- É um prazer conhecê-la, ainda que em condições estranhas. -sorriu
- O prazer é meu senhor… professor?
- Por favor, Emanuel. E não sou professor, estou a fazer um doutoramento em teologia e… posso tratá-la por tu?
- Sim claro.
- E tu o que estudas?
- Estou a fazer mestrado na mesma área que o senhor.
- Ora se te vou tratar por tu peço o mesmo, afinal de contas a nossa diferença de idades não pode ser muita…
Continuaram a conversar por mais uma hora que parecia ter voado. Despediram-se quando ambos tiveram de regressar aos estudos para as suas respectivas teses.

Lisboa Secreta #2 Camila

CAMILA Antunes era uma jovem de 23 anos que neste momento da sua vida estava farta de ouvir o jingle bells. Estudante de marketing via-se obrigada a trabalhar como empregada numa loja de roupa para poder pagar os estudos.
Sendo loira e de olhos azuis, quem não a conhecia, pensava que ela não era portuguesa. No entanto a sua família era do norte do país tendo os seus pais se mudado para Lisboa pouco antes de ela nascer, em busca de uma vida melhor.
Era véspera de Natal e ela ainda a trabalhar pois a loja só fechava às 18horas.
- É Natal, é Natal. – cantarolava uma colega – Então não cantas?
- Cantar? Tenho montes de coisas para fazer antes do jantar. Vou ter a família toda lá em casa e eu aqui.
- Ora eu também estou aqui.
- Tens razão, desculpa. Eu já devia estar habituada a isto.
- Pois devias… mas olha… é Natal é Natal lá lá lá lá lá.
Chegara finalmente a hora de sair daquela loja infernal onde as músicas natalícias passavam em loop para alegria dos clientes e horror das empregadas.
Era véspera de Natal e já tinha a sua família reunida em casa, o jantar estava quase pronto. Teve apenas tempo para trocar de roupa para algo mais confortável e deixou os seus longos cabelos loiros soltos.

Lisboa Secreta #1 Adriana

Olá a todos. Venho hoje deixar-vos já uma parte da história que pretendo escrever aqui no blog. Nos dias que se seguem até ao final do ano apresentarei, em linhas gerais, as personagens. Devido à preguiça de desenhar optei por vos mostrar as personagens em forma de pequenos avatares para que tenham uma ideia visual delas para além da que apresento na escrita. Espero que gostem.

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